O esquerdista burguês

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Estava lendo esse texto sobre “A parábola do roqueiro burguês” e me lembrei de um texto que há tempos quero escrever mas que não encontro tempo, coragem, termos. Enfim, comecemos. Quem é o esquerdista burguês do título? É aquele cara que é de esquerda, mas é rico. Diz que não é rico, mas sempre estudou em escolas boas, fez faculdade pública por mérito e não por falta de dinheiro, e hoje tem algum cargo público da vida. Mas eu quero especificar e falar de um tipo de esquerdista burguês específico: o professor universitário de universidade federal. Lido com eles há uns bons anos e já vi muito exemplo, mas vou focar em um professor específico e em um fato específico, mas sem dar nomes, claro. Eis que o semestre começou, as aulas aconteciam, o professor fez questão de ressaltar a presença física de seus alunos, uma vez que o que ele tinha pra dizer era mais importante que qualquer texto. Justo, pedante, mas justo. No meio tempo aproveitou também para falar de suas ideologias, de como ajudava com o movimento dos trabalhadores e etc. Com o tempo veio a greve, e claro, o professor aderiu. A greve foi longa, nesse meio tempo cada aluno passou por muitas coisas, uma das alunas inclusive foi aprovada em um concurso para professor da rede federal, tomou posse, assumiu e começou a dar aula. A greve acabou. A aluna foi na primeira aula pós greve, o professor adiou por uma semana a volta real das aulas, a aluna não pode comparecer a várias aulas. Um dia ela volta e vai conversar com o professor, e ele simplesmente não pode relevar as faltas, passar um trabalho extra, nada, nada. O mínimo que a aluna esperava era compreensão, afinal, não foi culpa dela se a greve fez com que as aulas fossem adiadas para um futuro no qual ela não poderia mais comparecer às aulas de manhã, e no fim, ela estava trabalhando, T.R.A.B.A.L.H.A.N.D.O sabe? Não era como se estivesse matando aula pra se divertir por aí. O problema é que os professores esquerdistas burgueses antes de serem esquerdistas, são burgueses, não sabem qual é a REAL situação de alguém que faz federal e precisa de auxílio para a permanência na faculdade, especificando no caso de brasília, esses professores, quando alunos da unb, moravam ali na Asa Norte ou na Asa Sul, ganharam carro do papai para ir às aulas, podiam voltar e almoçar em casa, almoçar no RU era opção, era pra estar com a galera. Podiam passar a tarde na biblioteca estudando, como podiam passar a tarde no dce pintando cartazes para protestos. A vida estava ganha. Eles não sabem o que é morar na periferia, o que é precisar entregar milhares de documentos na reitoria para conseguir o auxílio alimentação e pagar mais barato no almoço do RU ou não almoçar. Não sabem o que é depender de passe estudantil para ir às aulas. Pegar vários ônibus lotados, ver o ônibus quebrar e ter que chegar atrasado. E por não saber isso exigem uma dedicação dos alunos que só os burguesinhos conseguem, e assim perpetuam a lógica que os formou. Agora me diga: de que adianta reuni, de que adianta medidas afirmativas, medidas de permanência se o professor não consegue compreender esses alunos? Se o professor acha que todos os seus alunos são burguesinhos do SIGMA que podem se dedicar única e exclusivamente pra faculdade? E por favor, não me venha com essa de que se a pessoa não pode, melhor que não estude. Não é esse o ponto. Aliás, tive muito professor burgues esquerdista, mas tive alguns que compreendiam os alunos trabalhadores, e é só isso que eu peço. Não precisa pegar mais leve, basta compreender e tentar adequar as situações e as avaliações. Na historinha acima custava passar uns trabalhos extras pra garota? Não precisa ter pena e relevar as faltas, não é pena que o estudante trabalhador quer, é compreensão! Menos discurso e mais ação prática, por favor.

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