Solidão 2010

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Olhe ao lado, se você está em casa, em seu quarto, talvez com o notebook no colo, talvez ele esteja em uma mesa, não importa, você está só. Se você está em uma lan house, muito provavelmente estará cercado de pessoas, adolescentes vendo seu Orkut, trabalhadores checando um e-mail de última hora, desempregados fazendo currículos, ou gente a toa só matando tempo, ainda assim você está sozinho. Ou você pode estar em uma cafeteria, várias pessoas nas mesas com computadores ou não, grupos em algumas mesas, pessoas sozinhas em outras, você, não faz diferença se está com um amigo ou só, você está sozinho. Você não está sozinho simplesmente pelo fato de não ter ninguém ao seu lado, você está sozinho pelo fato de que estamos todos sozinhos.
Sempre pensei sobre a solidão porque sempre fui muito só. Sou a filha mais nova de uma família de seis filhas, e sou bem mais nova que todas as minhas irmãs, por isso aprendi a brincar só. As constantes mudanças de casa me fizeram ir perdendo os amigos da rua, que foram substituídos pela televisão, que foi perdendo lugar para internet e para os amigos virtuais. Não eu não sou o clichê que todo mundo imagina de alguém que tem uma vida virtual mais ativa que uma vida social, não sou gorda e não tenho gatos, mas sou só, só como todos são mais poucos se dão conta.
A solidão é algo intrínseco ao ser humano, por que nosso interior é único e inacessível aos que estão de fora. Se eu me deprimo e você percebe, você pode perguntar o que se passa comigo, e eu posso simplesmente dizer que nada está acontecendo e seguimos com nossa vida. E se eu for ainda mais longe, eu posso estar terrivelmente deprimida e você se quer notar, ou fingir que não notou. O ponto é: do meu interior só sei eu. Do que se passa em minha mente, em meu coração, do que eu sinto, penso, decido, ajo. De tudo que diz respeito a mim, só eu que sei, o outro é apenas um espectador, e um espectador limitado, que olha de longe o que se passa, mas que nunca sabe exatamente o que acontece aqui dentro, nem chega a ver expressas em minha face minhas emoções porque posso simular.
Alguns acreditam em Deus, alguns acreditam que ele está aqui em toda essa bagunça, que faz parte de tudo isso conosco. Outros não. Para os que não acreditam estamos irremediavelmente sós, para os que acreditam não estamos assim tão sós. Mas Deus a parte, o fato é que como seres humanos estamos sós.
Há ainda aqueles que procuram aplacar a solidão em um relacionamento, seja em uma amizade, em um namoro, em um casamento, comprando um cachorro, não importa, a resposta para todos esses é que seus relacionamentos vão falhar se eles estiverem com essa motivação de aplacar sua solidão se entregando para outro. O outro nunca será capaz de nos ver como nos vemos, o outro nunca será capaz de ultrapassar qualquer que seja essa capa que possuímos e que mantém os outros fora. E é por isso que a maioria dos relacionamentos fracassa, colocamos um peso e uma responsabilidade incompatíveis com o que o outro pode lidar, e se sentindo sufocado ou sobrecarregado, o outro foge.
E eu sei que muita gente que está lendo isso agora está supondo que minhas afirmações se baseiam no fato de eu não ter um relacionamento verdadeiro, ou pelo menos não tão verdadeiro quanto o que possuem. E eu só tenho uma coisa a dizer: olhe ao seu redor, olhe com menos romantismo e o mais realista que puder, será que seu relacionamento é tão verdadeiro quanto você pensa que é? Será que nem uma vez você mentiu? Simulou? Traiu? E não digo da pior forma possível, por que é claro, alguém como você nunca faria isso, digo da forma mais inocente, ou mais bem intencionada, será que você nunca disse pra ele, ou ela, algo que não era exatamente verdade simplesmente pelo bem da relação? Ou será que você não fingiu estar completamente feliz com um presente que você odiou? Ou simplesmente para evitar uma discussão? Bom, é nesse ponto que eu queria chegar, não sou eu ou meus relacionamentos, a solidão é um fato para todos. Só você tem os interesses que você tem, só você sabe o que é melhor pra você, só você se vê como realmente você é, pois por mais que você tente se descrever para os outros, eles não vêem tão fundo quanto você vê. Outra vez repito, eles são espectadores limitados, passíveis de serem enganados por você a qualquer momento.
Mas eu particularmente não acho a solidão algo ruim. No fundo, é um conforto saber que suas neuras não ultrapassam a capa invisível que nos isola do mundo, que você pode se mostrar melhor do que realmente é, ou pior, conforme a necessidade. Claro que é solitário, mas quando você compreende que todos estão sós, bom, é um pouco mais reconfortante saber que não estamos sós no sofrimento.

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